10 anos de Nada Pode Me Parar

O sexto disco da carreira solo de Marcelo, “Nada Pode Me Parar”, concretiza o seu impacto para a música brasileira.

Este ano de 2023 é marcado pelo aniversário de 10 anos de um dos discos mais importantes da carreira de ninguém menos que Marcelo D2. Com quase 30 anos de carreira, o carioca Marcelo D2 é um artista que transita com maestria entre os gêneros do rock, rap, pop, samba e MPB como ninguém.

Há quem argumente que suas contribuições com a banda Planet Hemp sejam mais expressivas que sua carreira solo como MC no rap ou ainda como intérprete de samba, mas o que é inquestionável é sua habilidade de agregar diferentes tribos, conectar artistas de diferentes gêneros e estilos ou ainda sua capacidade coletiva em suas produções.

Fonte: Acervo do artista/Wikipedia

Com o grupo Planet Hemp, D2 iniciou sua trajetória com o impactante Usuário (1994), um ousado disco em uma época em que o consumo da maconha era um tabu. A situação não mudou muito no disco seguinte com a banda. Os Cães Ladram, Mas a Caravana Não Para (1997) segue na mesma linha, com letras ainda mais ousadas, que abusam do direito de liberdade de expressão.

Em 1998, D2 inicia sua carreira solo com o memorável Eu Tiro Onda (1998), disco que “abrasileirou” de vez a maneira como produzimos rap no nosso país ao apresentar forte influência de músicas nacionais em seus samples e na forma de experimentar novos sons. Essa sonoridade se reforçou em A Procura da Batida Perfeita (2003) – que inclusive faz 20 anos em 2023 -, onde a influência do samba fica ainda mais evidente. É também o momento da carreira em que somos apresentados à ideia da “busca pela batida perfeita”, uma ideia figurada e utópica que persegue Marcelo ao longo de sua trajetória.

Entre estes dois discos é importante lembrar também do terceiro com o Planet, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (2000):

“Usuário é sobre a coisa para ser um usuário sem precisar da guerra, o segundo que é de uma liberdade de expressão e esse terceiro que é sobre um anti-herói. Aquele cara que quer levantar a mão para falar e a sociedade não deixa. Ele me passa uma coisa de quem sabe o que quer, mas que para ser ouvido vai precisar meter o pé na porta”

Em entrevista para Omelete

A continuidade da sua carreira solo chega com o disco Acústico da MTV (2001), provavelmente a sua obra mais popular. Com uma seleção de faixas dos seus primeiros discos solo e com o Planet, D2 reinventa alguns dos sons que já eram marcantes como “Qual É?”, “A Maldição do Samba”, “Contexto” e “1967” em versões ao vivo acompanhadas de uma verdadeira orquestra.

Antes de Nada Pode Me Parar (2013), temos ainda o disco A Arte do Barulho (2008), que se afasta um pouco da sonoridade do samba sem deixar de experimentar outros sons tipicamente brasileiros, em especial a MPB, e o álbum de  homenagem ao Bezerra da Silva, Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva (2010), uma verdadeira carta aberta para essa influência artística do D2.

“Bezerra é muito rapper. Quando comecei a cantar rap, o que mais queria era fazer letra como ele, ter a malandragem que ele tem, seu sarcasmo. As músicas são antigas, mas muito atuais. Acho que datei muito mais minhas músicas do que ele. Poucos sambistas tinham a atitude dele, e por isso ele era visto como ‘cantor bandido’. Ele tinha uma linguagem direta, da rua” POCA

Em entrevista para Olhar Direto/É

O disco

O sexto disco da carreira solo de Marcelo, “Nada Pode Me Parar”, concretiza o seu impacto para a música brasileira. O disco traz a produção executiva de Mario Caldato Jr., produtor e engenheiro de estúdio internacionalmente renomado, participações como o cantor Aloe Blacc, o produtor Cooking Souls e o rapper Like do grupo Pac Div, sem contar os nomes de expressão nacional que já possuem certa relevância na cena, como NAVE, Papatinho, DJ Nuts, Renan Saman, Hélio Bentes e seu filho Sain

Falando do disco em si, eu, particularmente, tenho este como o meu favorito da discografia do D2, considerando inclusive os álbuns com a banda Planet Hemp. É em Nada Pode Me Parar que uma de suas características mais marcantes se destaca: a composição.

Para mim, uma boa composição não necessariamente precisa ser extremamente técnica, complexa ou perfeita. Neste disco, Marcelo D2 consegue transitar entre diferentes temáticas com clareza. Ele compartilha suas experiências, dá seus conselhos sem que seja de uma forma “professoral”, sem impor ao seu ouvinte. Além disso, apresenta a ideia de continuidade, esperança em seguir em frente de uma forma bonita e relacionável. E ainda utiliza expressões e jargões populares, o que dá certa simplicidade para as rimas e para as mensagens.

O dom é a vida que dá e dá pode acreditar
Às vezes palavras tortas, às vezes laiá-laiá (há)
Eu tenho a alma de um lanceiro, que nunca se entregou
Bandeiras erguidas, mãos pro alto que a gente chegou

“Esta Chegando a Hora (Abre Alas)”

Penso que isso surge da forte influência do samba no artista, que, dentre suas inúmeras marcantes composições, retrata a vida e suas mazelas, seus problemas, suas angústias, sem perder a sensibilidade e a malandragem. É o que observamos nas letras de Bezerra da Silva que tanto inspiram o rapper.

Malandro é o cara que sabe das coisas
Malandro é aquele que sabe o que quer
Malandro é o cara que ta com dinheiro
E não se compara com um Zé Mané

“Malandro é Malandro e Mané é Mané”, por Bezerra da Silva

Imparável

Para além da composição, em termos de produção, o disco também se destaca em trazer os elementos do rap, samples, scratches e percussões eletrônicas, com naipes de instrumentos de corda, bateria e percussão. Há um equilíbrio de ritmos mais agitados e suaves justamente por essa abertura nas produções que misturam rap  com elementos de outros gêneros musicais. 

Renan Saman traz algumas das produções mais relaxantes, como “A Cara do Povo” e “Você Diz Que o Amor Não Dói”. DJ Nuts traz faixas com ritmos balizados pelos sons sintéticos da mesa eletrônica em “Livre” e “Vou Por Aí”. Papatinho, que ainda não tinha a popularidade de hoje, traz um sample do Ivan Lins que cai como uma luva em “Está Chegando a Hora (Abram Alas)”. Esses são só alguns dos exemplos da variedade musical que o disco apresenta.

A marca do D2 em misturar o rap com a música brasileira encontra neste disco uma de suas melhores formas, principalmente por estabelecer um equilíbrio nas escolhas dos timbres e graves sem deixar que os elementos típicos do Hip-Hop ficassem como coadjuvantes. Isso pode ser o maior problema para os ouvintes em outras obras do artista, que muitas vezes experimenta e traz ritmos que se sobrepõem ao rap em si. Isso não necessariamente é ruim, mas definitivamente pode afastar ouvintes mais tradicionais do rap.

Foto por: Gabriel Quintão

Outro ponto de destaque é com relação às participações. Quando elas acontecem, é notável como contribuem para transmitir a ideia central proposta por Marcelo em cada faixa. Joya Bravo em “Felling Good” traz suavidade para faixa romântica que busca enaltecer aquilo que faz a pessoa apaixonada ficar caidinha pela outra, de situações mais simples às inusitadas. Outro exemplo é o trio de MCs cariocas Batoré, Akira Presidente e OQxó em “Fella”, que ajudam D2 a intimidar o “fella”, vulgo péla saco. 

Mesmo as participações internacionais não distraem o ouvinte da ideia de cada faixa, pois a mensagem é transmitida pelas produções e a entrega da faixa. Como é o caso de Like em “Livre”, faixa que fala sobre a liberdade de expressão e de viver, ou Aloe Blacc em “Danger Zone”, uma homenagem à vida nos grandes centros urbanos.

Never like locks, so we knock down doors
Never like jobs, so we rock out tours
When I get too claustophobic, I go walk outdoors
I guess my freedom to express comes out my pores
Is a shame, the rules ain’t written very clear
And everything changes with the players every year

Like em “Livre”

Antes de virar moda, D2, com Nada Pode Me Parar, apresenta seu disco de forma visual também. Toda faixa possui um videoclipe, com exceção dos interlúdios. Esta é mais uma característica que eleva a obra, que, embora não sejam vídeos revolucionários, complementam muito bem cada faixa.

Um dos meus videoclipes favoritos é o da faixa “Você Diz Que Amor Não Dói”, gravado em Angola com direção de Gandja Monteiro.  É simbólica a escolha de um país na África, como se fosse um retorno a um amor perdido, o amor por um laço ancestral. Como referências a Ernest Hemingway, Woody Allen, Marcus Garvey, nesta música Marcelo fala de amor, mas não o amor romântico e sim aquele amor impossível, que arde como um objetivo pessoal de vida.

Teste do Tempo

Diferente de alguns discos que se tornam marcos para uma geração ou que são revolucionários em seu gênero, Nada Pode Me Parar é uma execução precisa de um Marcelo D2 com mais de 20 anos de carreira, confortável no que faz, mas com muita vontade de não ficar estagnado. Uma joia rara na discografia de um artista tão expressivo. De certa forma, fazendo jus ao título escolhido para o álbum.

Longe de ser perfeito, até porque esta nem é a proposta de NPMP, muito menos a ideia de D2 ao longo de sua carreira, este projeto pode não ter chamado sua atenção ou comovido os críticos da música, mas, no teste do tempo, este disco tem melhorado como um bom vinho. Isso mesmo se comparado às suas obras mais recentes.

Amar é para os Fortes (2018) é um disco conceitual e audiovisual, que entrega essas misturas que D2 dominou ao longo de sua carreira com maestria, mostrando a capacidade do artista em criar personagens. 

Assim Tocam os Meus Tambores (2020) é uma das realizações coletivas mais interessantes e modernas já produzidas aqui no nosso país, se não no mundo, e não poderia vir de mais ninguém do que o próprio Marcelo, que sempre foi um agregador. Este disco foi produzido inteiramente à distância, em lives no seu canal da Twitch durante o período mais intenso da pandemia do COVID-19. 

O seu disco mais recente, IBORU (2023), é um disco de samba que mostra essa capacidade do artista em ultrapassar as fronteiras do rap sem deixar de levar consigo a criatividade e sagacidade conquistadas ao longo de sua carreira como MC.

Em comparação com essas obras, as composições em Nada Pode Me Parar se mantêm atuais apesar de terem completado 10 anos. As letras abordam temáticas como o amor em diferentes perspectivas das tradicionais, relatam as injustiças e problemas da vida com certa ternura e mostram um artista maduro em conjunto com uma capacidade aguçada e sensível na escolha dos sons que os tornam marcantes e atraem os ouvintes.

Além disso, é também o projeto do artista que fortalece de vez o rap como uma produção tipicamente brasileira, produzida a partir das influências e características próprias da nossa música. D2 está e sempre esteve na vanguarda desse movimento, sem medo de experimentar e estender a mão ao próximo para aprender e reaprender. 

É um disco como esse que nos faz lembrar a importância de Marcelo D2 para a música brasileira. Lembramos muito de Racionais MCs quando falamos do rap nacional, mas não damos o devido valor ao Marcelo, que está na cena praticamente pelo mesmo período e com muitas produções que ultrapassam as fronteiras do rap. 

Sempre que a cena do rap se encontra estagnada, Marcelo continua a caminhar em outras direções. Para quem acompanha não só a cena do rap, mas a música brasileira em geral, D2 hoje é um dos nomes obrigatórios para entendermos para onde nosso cenário musical se movimenta. Neste contexto, Nada Pode Me Parar permanece como audição obrigatória para entender a mente deste artista tão relevante. E no rap, este disco foi um verdadeiro respiro para uma cultura tão influenciada pelos Estados Unidos. 

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