Quando a Sociedade Desaba, o Que Ainda Vale a Pena Ser Salvo?

Em “Caro Vapor II: Qual a Forma de Pagamento?”, mais de uma década após se consolidar como uma das vozes mais instigantes do rap nacional, Don L reafirma sua influência sobre uma geração que o estuda, cita e replica, enquanto coloca a própria cena sob análise. Se antes narrava a desigualdade a partir da margem desde o tempo do Costa a Costa, agora fala de dentro do mecanismo, com mais ferramentas, mais visibilidade e menos ilusões. 

Capa de ‘CARO Vapor II – qual a forma de pagamento?’

Expõe os limites do capital enquanto encara sua própria realidade financeira como artista independente, obrigado a operar como empresa, disputar atenção com imagem, cliques e um fluxo interminável de conteúdo, ao mesmo tempo em que tenta sobreviver em um ambiente que exige excelência justamente de quem quase nunca recebeu estrutura.

Ao mesmo tempo, denuncia o esvaziamento de sentido dentro do hip-hop, cooptado por uma lógica de performance e consumo que banaliza a experiência real. E isso é só um dos subtemas amarrados dentro de uma soma de fatores, denúncias e cenários que te nocauteiam ao mesmo tempo que te abraçam. Um impacto duplo que atinge pela brutalidade do real e conforta pela lucidez da arte.

Em vez de resolver esses conflitos em nome de uma coerência impossível, o disco os dramatiza. Esse contraste não aparece como falha, mas como escolha estética de um Brasil pós-otimismo, onde a falência geral virou rotina.

“Capitalismo tardio, época doida pra se estar vivo”

Os corpos estão exaustos, a crise climática aperta, a democracia parece sobreviver por um fio. As relações interpessoais se desgastam, e a atenção é explorada como nova moeda digital: sua fala, seu texto, seu clique e seu like alimentam algoritmos que transformam cada traço da sua existência em mercadoria. A cada segundo, a inteligência artificial pasteuriza a vida com mais eficiência, enquanto as casas de apostas capturam a mente de vítimas bombardeadas por um marketing desenhado para viciar. 

O entretenimento constante se mistura às promessas vazias da tecnologia; o consumo vira consolo; o discurso do empreendedorismo transforma a superação individual em solução universal. Até a ideia de rebeldia é convertida em produto. No fim, todo esse ambiente ergue um muro silencioso que impede a pergunta essencial: é possível existir de outra forma que não seja dentro desse mesmo sistema?

É esse cenário no qual vivemos, o da hipernormalização, um estado em que o colapso é evidente, mas ainda assim aceito como se fosse normal. Essa ideia ganhou força com o documentário HyperNormalisation (2016), de Adam Curtis, que argumenta que, desde os anos 1970, governos, financistas e tecnólogos passaram a produzir narrativas simplificadas para preservar a aparência de estabilidade. Mesmo cientes de que essa normalidade é artificial, as pessoas continuam presas a ela porque não conseguem enxergar alternativas dentro de uma realidade cada vez mais caótica, esgotada e difícil de decifrar.

A partir disso, Don L retrata essa condição social com imagens de mobilidade travada, oportunidades que nunca chegam e uma fé cada vez mais frágil no futuro. É uma proposta que sempre esteve em sua discografia, especialmente em “Caro Vapor/Vida e Veneno de Don L” e em “Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3”, mas nunca antes tão aprofundada. Aqui, seu rap tenta despertar um corpo anestesiado, e o método escolhido é um anti-rap afinado no ponto.

Ele observa o país sem recorrer ao conforto do distanciamento moral. Assume que sobreviver exige malandragem, estratégia e negociação dentro do mesmo mercado que critica. Não existe pureza possível, e talvez admitir isso seja o gesto mais honesto do projeto. Em vez de resolver esses conflitos em nome de uma coerência impossível, o disco os dramatiza. Esse contraste não aparece como falha, mas como escolha estética de um Brasil pós-otimismo, onde a falência geral virou rotina.

“Eu sou do sul da América e vocês nunca vão saber”

A obra se estrutura como um território sonoro onde sobrevivência, memória e contradição se misturam. Ao aproximar Itamar Assumpção e Dorival Caymmi de Belchior, Milton Nascimento e Rodger Rogério, Don L reposiciona o rap dentro de um formato genuíno de anti-rap, em diálogo com tradições que já foram resposta em outros momentos de sufocamento histórico. Nada é gratuito: cada ritmo e cada colaboração funcionam como máscara e revelação, oferecendo ao mesmo tempo dança e peso, festa e ruínas.

Ao lado de Iuri Rio Branco e Nave, o rapper ergue uma produção ancorada em ritmos brasileiros como samba, funk, reggae, baião, bossa e percussões afro-sincopadas, usando os samples não como aceno nostálgico, mas para reafirmar sua ambição política e estética ao transformar brasilidade, crítica social e musicalidade em um único corpo em movimento.

O álbum conecta gerações ao trazer vozes como Anelis Assumpção e Alice Caymmi, reativando as memórias de Itamar e Dorival em novas formas. Giovani Cidreira aparece como peça-chave nas faixas mais marcantes: em “Para Kendrick e Kanye”, seu diálogo com Milton Nascimento contrapõe o glamour do rap norte-americano à dureza brasileira; em “Aff Maria”, sua voz unida ao Belchior menos óbvio por samplear “Senhor Dono da Casa” cria um dos picos estéticos do disco. As demais participações também ampliam esse mosaico sonoro, como o reggae-baião de “Imigrante”, ao clima tropical de “Dias de Verão”, até a densidade de “Iminência Parda”, construída sobre o MPB do cearense Rodger Rogério.

E, dessa forma, ouvir o álbum é como se sentar diante de uma mesa farta com os pratos mais saborosos de cada canto do país. O instrumental é tão acentuado que equivale a encher o paladar de temperos escolhidos na medida certa, feito para ser apreciado com gosto, fome e entrega, até culminar naquele sentimento raro de satisfação plena.

“Incrível o flow como quando seu corpo infringe as leis, é como eu rimo”

E caindo como uma luva nesse instrumental, a escrita segue afiada, irônica e autorreflexiva. Don L opera com duplo sentido, referências culturais e um sarcasmo calculado, escolhendo palavras que afirmam e desestabilizam ao mesmo tempo. Em versos curtos e precisos, ele condensa análise social, lirismo, humor, desencanto e consciência histórica. Encontra brechas nos pequenos gestos, na narrativa pessoal, no repertório que reivindica e nas memórias que convoca. Cada linha é afirmação e dúvida coexistindo, traduzindo o sentimento de habitar um país em ruínas do qual ninguém consegue escapar.

“O mano foi comprar um curso que ensinava algum golpe
Surpresa, o curso era um golpe (Uau)
Ele achou genial
Diz algo estúpido, o algoritmo puxa pelo emocional
Vou te ensinar o segredo do sucesso
Se fizer o que eu digo vai ficar rico
Fisga, diz algo fake-subversivo
Faz uma ofensa a alguém inofensivo”
— Don L, “tudo é Simulação/Conflito”

Ele também rejeita as convenções estéticas que historicamente moldaram o rap, e é justamente aí que o anti-rap se afirma com mais força. Don L desmonta expectativas de flow, métrica, refrão, punchline ou qualquer estrutura linear previsível. O rap deixa de ser uma forma rígida e vira um campo de experimentação que incorpora composição brasileira, harmonias abertas, arranjos orgânicos e uma narrativa quase ensaística e uma estética que recusa a lógica do produto. É rap que se recusa a funcionar como rap “esperado” e justamente por isso amplia o que o gênero pode ser.

“Me ajude a navegar nessa era de trevas
Nova idade média
Big techs roubando seu tempo
Pega tss, pega tss (Otário)
Deep fakes, bet, bet, bet (Ow bet)
Agora o pilantra nem sai de casa
‘Pra trombar o mané e dar um match, match, match”
– Don L, “tristeza Não”

Em vez de seguir o formato dominante de verso-quadrado, ele prefere quebrar, dobrar e esticar o molde. As faixas soam como obras em processo, nunca totalmente fechadas, refletindo a própria tese social que o álbum articula. Seu anti-rap se sustenta como contradição viva: continua sendo rap, mas recusa a função de entretenimento ou commodity. Sabota a linguagem por dentro, usando os próprios recursos do gênero para tensionar o enquadramento que a indústria tenta impor.

Toda a obra também funciona como um registro do Brasil recente, o artista não reduz o problema a uma única camada social, estética ou pessoal. Revela que todas elas entraram em colapso ao mesmo tempo. O disco não pretende consertar nada, porque não há solução simples para oferecer; ele ensina a permanecer vivo enquanto tudo desmorona ao redor. Por isso, torna-se um objeto político completo, não apenas pelo que diz, mas pela forma como é construído. A subversão formal acompanha a própria temática.

Recusar a hipernormalização, acreditar no que ainda resta, fazer música que não se dobra às regras do mercado e reivindicar o legado musical brasileiro como estrutura política é afirmar que ainda existe espaço para pensar e agir fora do previsto. É um gesto de resistência que transforma cada escolha de produção, cada quebra estrutural e cada referência musical em ferramenta crítica.

A proposta aqui não é erguer uma obra limpa, coerente ou edificante. É assumir a incoerência concreta de quem tenta existir no Brasil contemporâneo. Essas músicas dançam sobre escombros, sem disfarçar o incêndio nem o cheiro de fumaça que atravessa tudo, exigindo uma leitura redobrada na escuta. 

(Foto: Bel Gandolfo)

“Azar ou sorte de quem multiplica e soma”

Num tempo em que a neutralidade virou regra, Don L abre um ponto de perspectiva fora da curva de um mundo que se estreita em monocromias e polarizações. Faz disso uma forma de insistir na vida com sabedoria, senso crítico e compaixão. Raramente esse gesto foi tão necessário, soando como o mais puro instinto de sobrevivência adotado não sob o manto do herói que derrota o vilão, porque essa fantasia é impossível, mas no papel do coadjuvante que aponta caminhos mais dignos dentro desse caos adoecedor.

Ele ergue um documento vivo de um país em fricção permanente, onde sobrevivência e imaginação disputam o mesmo espaço. É um álbum que exige presença, que desalinha, que devolve perguntas ao ouvinte e, ao fazer isso, reafirma a arte como território de reinvenção. Se o mundo insiste em nos empurrar para a apatia, Don L responde lembrando que pensar, sentir e criar ainda são atos de resistência, e talvez seja justamente isso que mais importa agora.

(Foto: Bel Gandolfo)
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