Este ano de 2023 é marcado pelo aniversário de 10 anos de um dos discos mais importantes da carreira de ninguém menos que Marcelo D2. O carioca tem sido, há cerca de 30 anos, um artista que transita com maestria entre os gêneros do rock, rap, pop, samba e MPB como ninguém.
Há quem argumente que suas contribuições no rock com a banda Planet Hemp sejam mais expressivas que sua carreira solo como MC no rap, ou ainda como intérprete de samba, mas o que é inquestionável é sua habilidade em agregar diferentes tribos, conectar artistas de diferentes gêneros e estilos ou ainda sua capacidade coletiva em suas produções – ainda mais se olharmos para as suas obras após 2013.
Com o grupo Planet Hemp, D2 iniciou sua trajetória com o impactante Usuário, um ousado disco em uma época que o consumo da maconha era um tabu. A situação não mudou muito no disco seguinte com a banda. Os Cães Ladram, Mas a Caravana Não Para segue na mesma linha, com letras ainda mais ousadas, que abusam do direito de liberdade de expressão.
Em 1998, D2 inicia sua carreira solo com o memorável Eu Tiro Onda, disco que “abrasileirou” de vez a maneira como produzimos rap no nosso país ao apresentar forte influência de músicas nacionais em seus samples e na forma de experimentar novos sons. Essa sonoridade se reforçou em A Procura da Batida Perfeita onde a influência do samba fica ainda mais evidente. É também o momento da carreira que somos apresentados a ideia da “busca pela batida perfeita”, uma ideia figurada, utópica que persegue Marcelo ao longo de sua trajetória.
Entre estes dois disco é importante lembrar também do terceiro disco do Planet, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça:
“Usuário é sobre a coisa para ser um usuário sem precisar da guerra, o segundo que é de uma liberdade de expressão e esse terceiro que é sobre um anti-herói. Aquele cara que quer levantar a mão para falar e a sociedade não deixa. Ele me passa uma coisa de quem sabe o que quer, mas que para ser ouvido vai precisar meter o pé na porta” – Em entrevista para Omelete
A continuidade da sua carreira solo chega com o disco Acústico da MTV, provavelmente a sua obra mais popular. Com uma seleção de faixas dos seus primeiros discos solo e com o Planet, D2 reinventa alguns dos sons que já eram marcantes como “Qual É?”, “A Maldição do Samba”, “Contexto” e “1967” em versões ao vivo acompanhada de uma verdadeira orquestra.
Antes de Nada Pode Me Parar, temos ainda o disco A Arte do Barulho, que se afasta um pouco da sonoridade do samba sem deixar de experimentar outros sons tipicamente brasileiros, em especial a MPB, e a homenagem ao Bezerra da Silva, Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva, uma verdadeira carta aberta para essa influência artística para o D2.
“Bezerra é muito rapper. Quando comecei a cantar rap, o que mais queria era fazer letra como ele, ter a malandragem que ele tem, seu sarcasmo. As músicas são antigas, mas muito atuais. Acho que datei muito mais minhas músicas do que ele. Poucos sambistas tinham a atitude dele, e por isso ele era visto como ‘cantor bandido’. Ele tinha uma linguagem direta, da rua” – Em entrevista para Olhar Direto/ÉPOCA
O disco
O sexto disco da carreira solo de Marcelo, “Nada Pode Me Parar”, concretiza o seu impacto para a música brasileira. O disco traz a produção executivo de Mario Caldato Jr., produtor e engenheiro de estúdio internacionalmente renomado, participações como o cantor Aloe Blacc, o produtor Cooking Souls e o rapper Like do grupo Pac Div, sem contar nomes de expressão nacional que já possuem certa relevância na cena, tais como NAVE, Papatinho, DJ Nuts, Renan Saman, Hélio Bentes e seu filho Sain.
Falando do disco em si, eu, particularmente, tenho este como o meu favorito da discografia do D2, considerando inclusive os álbuns com a banda Planet Hemp. É em Nada Pode Me Parar que uma de suas características mais marcantes se destaca: a composição.
O mundo nunca deu mole pra mim
O que é meu é meu, é fato, aqui não tem tempo ruim
Ele disse: “Cash Rules Everything Around Me, C.R.E.A.M”
(Não) Quem disse que precisa ser assim?
Para mim, uma boa composição não necessariamente precisa ser extremamente técnica, complexa ou perfeita. Neste disco, Marcelo D2 consegue transitar entre diferentes temáticas com clareza e simplicidade. Ele compartilha suas experiências, dá seus conselhos sem que seja de uma forma “professoral”, sem impor ao seu ouvinte. Além disso, apresenta a ideia de continuidade, esperança em seguir em frente de uma forma bonita e relacionável.
O dom é a vida que dá e dá pode acreditar
Às vezes palavras tortas, às vezes laiá-laiá (há)
Eu tenho a alma de um lanceiro, que nunca se entregou
Bandeiras erguidas, mãos pro alto que a gente chegou
Penso que isso surge da forte influência do artista do samba, que dentre suas inúmeras marcantes composições, retrata a vida e suas mazelas, seus problemas, suas angústias, sem perder a sensibilidade e a malandragem. É o que observamos nas letras de Bezerra da Silva, um dos maiores nomes do samba nacional e com certeza uma forte influência nas letras do D2.
Malandro é o cara que sabe das coisas
Malandro é aquele que sabe o que quer
Malandro é o cara que ta com dinheiro
E não se compara com um Zé Mané
Imparável
Para além da composição, em termos de produção, o disco também se destaca em trazer o elementos do rap, samples, scratchs e percussões eletrônicas, com naipes de instrumentos de corda, bateria e percussão. Há um equilíbrio de ritmos mais agitados e suaves justamente por essa abertura nas produções que misturam rap e com elementos de outros gêneros musicais.
Renan Saman traz algumas das produções mais relaxantes, como A Cara do Povo e Você Diz Que o Amor Não Dói. DJ Nuts traz faixas com ritmos balizados pelos sons sintéticos da mesa eletrônica em Livre e Vou Por Aí. Papatinho, que ainda não tinha a popularidade de hoje, traz um sample do Ivan Lins que cai como uma luva em Está Chegando a Hora (Abram Alas). Esses são só alguns dos exemplos da variedade musical que o disco apresenta.
A marca do D2 em misturar o rap com a música brasileira encontra neste disco uma de suas melhores formas, principalmente por estabelecer um equilíbrio nas escolhas dos timbres e graves sem deixar que os elementos típicos do Hip-Hop ficassem como coadjuvantes. Isso pode ser o maior problema para os ouvintes em outras obras do artista, que muitas vezes experimenta e traz ritmos que se sobrepõem ao rap em si. Isso não necessariamente é ruim, mas definitivamente pode afastar ouvintes mais tradicionais do rap.
Quando há participações elas contribuem imensamente para transmitir a ideia central proposta por Marcelo. Joya Bravo em Felling Good traz suavidade para faixa romântica que busca enaltecer aquilo que faz a pessoa apaixonada ficar caidinha pela outra, de situações mais simples a
às inusitadas. Outro exemplo é o trio de MCs cariocas Batoré, Akira Presidente e OQxó em Fella que ajudam D2 a intimidar o “fella”, vulgo pela saco.
Mesmo as participações internacionais não distraem o ouvinte da ideia de cada faixa, pois a mensagem está nas produções e nos sons apresentados na faixa. Como é o caso de Like em Livre, faixa que fala sobre a liberdade de expressão e de viver, ou Aloe Blacc em Danger Zone, uma homenagem à vida nos grandes centros urbanos.
Never like locks, so we knock down doors
Never like jobs, so we rock out tours
When I get too claustophobic, I go walk outdoors
I guess my freedom to express comes out my pores
Is a shame, the rules ain’t written very clear
And everything changes with the players every year
Antes de virar moda, D2, com Nada Pode Me Parar, apresenta seu disco de forma visual também. Toda faixa possui um videoclipe, com exceção dos interlúdios. Esta é mais uma característica que eleva a obra, que embora não sejam vídeos revolucionários, complementam muito bem cada faixa.
Um dos meus videoclipes favoritos é o da faixa Você Diz Que Amor Não Dói, gravado em Angola com direção de Gandja Monteiro. É simbólico a escolha de um país na Afríca, como se fosse um retorno a um amor perdido, o amor por um laço ancestral. Inspirada em Ernest Hemingway, Woody Allen, Marcus Garvey, nesta faixa Marcelo fala de amor, mas aquele amor impossível que não é necessariamente romântico.
Pra quem quer conhecer Marcelo D2
Diferente de alguns discos que se tornam marcos para uma geração ou que são revolucionários em seu gênero, Nada Pode Me Parar é uma execução precisa de um Marcelo D2 com mais de 20 anos de carreira, confortável no que faz, mas com muita vontade de não ficar estagnado. Uma jóia rara na discografia de um artista tão expressivo. De certa forma, fazendo jus ao título escolhido para o álbum.
Longe de ser perfeito, até porque esta nem é a proposta de NPMP, muito menos a ideia de D2 ao longo de sua carreira, este projeto pode não ter chamado sua atenção ou comovido os críticos da música, mas no teste do tempo, este disco tem melhorado como um bom vinho. Isso mesmo se comparado às suas obras mais recentes.
Amar é para os Fortes é um disco conceitual e audiovisual, que entrega essas mistura que D2 dominou ao longo de sua carreira com maestria, mostrando a capacidade do artista em criar personagens.
Assim Tocam os Meus Tambores é uma das realizações coletivas mais interessantes e modernas já produzidas aqui no nosso país, se não no mundo, e não poderia vir de mais ninguém do que o próprio Marcelo, que sempre foi um agregador. Este disco foi produzido inteiramente à distância, em lives no seu canal da Twitch.
O seu disco mais recente, IBORU, ultrapassa as fronteiras do rap sem deixar de levar consigo a criatividade e sagacidade do gênero de voltar para o samba, que no início era a influência e neste álbum o gênero principal.
Contudo, suas composições em Nada Pode Me Parar se mantém atuais e tornam esta obra memorável no quesito de composição. Com letras que abordam temáticas como o amor em diferentes perspectivas das tradicionais, que relatam as injustiças e problemas da vida com certa ternura e que mostram um artista maduro, com ouvido aguçado e sensibilidade marcante que atraem os ouvintes.
Além disso, é também o projeto do artista que fortalece de vez o rap como uma produção tipicamente brasileira, produzida a partir das influências e características próprias da nossa música. D2 está na vanguarda desse movimento, sem medo de experimentar e estender a mão ao próximo para aprender e reaprender.
É um disco como esse que nos faz lembrar o quão importante é Marcelo D2 para o rap e para música brasileira. Lembramos muito de Racionais MCs quando falamos do rap nacional, mas não damos o devido valor ao Marcelo, que está na cena praticamente o mesmo período e com muitas produções cultura musical brasileira em geral.
Em tempos que o trap e o grime sem criatividade dominam, Marcelo continua a caminhar em outras direções. Para quem acompanha não só a cena do rap, mas a música brasileira, D2 hoje é um dos nomes obrigatórios para entendermos para onde a música brasileira está indo. Neste contexto, Nada Pode Me Parar permanece como audição obrigatória para entender a mente deste artista tão relevante. E no rap, este disco é um verdadeiro respiro para uma cultura tão influenciada pelos Estados Unidos. Podemos fazer rap? “Sim”, respondeu Marcelo D2, “mas do nosso jeito”.