O Gênio e o Louco “Entre o Céu e a Terra”: uma dupla inesperada?

Tenho uma relação de amor e ódio com os artistas de O Gênio e o Louco “Entre o Céu e a Terra”. O Froid é um dos meus favoritos; gosto muito do seu primeiro disco e de muitos dos seus versos em participações ou na época do UmBarrildeRap. No entanto, considero-o muito inconsistente, e seus projetos em geral não me conquistam como o trabalho de outros artistas — gosto apenas de algumas faixas isoladas. Apesar disso, não deixo de exaltá-lo como um dos melhores escritores desta geração.

Já o Makalister também é alguém cuja qualidade nas composições e influência sobre outros artistas reconheço, trazendo referências mais densas e uma escrita não linear. Assim como com o Froid, também sinto certa inconsistência em seus discos e, sinceramente, nenhum deles consigo ouvir do início ao fim.

Capa de ‘O Gênio e o Louco “Entre o Céu e a Terra“’

Por isso, fiquei muito surpreso ao perceber que este novo disco da dupla me conquistou — e espero que conquiste muitos ouvintes. Fazia muito tempo que não via o Froid tão inspirado, apresentando alguns de seus melhores versos.

“Procurei meu papel pra pagar o aluguel nessa selva de pedra
Mas nos olhos dela eu enxergo o caminho que a água me leva
Deixa eu te levar, é o que a vida me diz todo dia, é diário
Filosofia aprendi com os amigo’ do bar e a ciência do paro”
— Froid em “Pra Nós Cantar”

O Maka também está diferente, com letras mais focadas nas temáticas e com a profundidade ideal.

“Eu tenho dúbios sentimentos sobre o que cerca a mim
Talvez por isso, a cada dia eu vou ficando mais sozinho
Mas, apesar disso, eu vou mostrando um caminho”
— Makalister em “Pra Nós Cantar”

O foco que faltava em outros projetos está presente aqui e eleva este disco a um nível que, individualmente, nenhum dos dois havia alcançado — acredito que não só para o meu gosto pessoal, mas em suas discografias individuais.

A parceria lírica foi benéfica para ambos. Acredito que os desafiou a olhar um para o outro e a compor letras que se complementam. O maior exemplo está na faixa de abertura, “Pra Nós Cantar”, que tem um dos melhores versos já escritos pelo Froid e apresenta um equilíbrio perfeito por parte do Maka nas referências e no conteúdo geral — traduzindo sua vontade de seguir vivendo.

Outro aspecto importante são as produções, a maioria assinadas pelo Cxsta com faixas do produzidas pelo próprio Froid e a última pelo Efieli. Neste disco, a qualidade é incrível. Em geral produções de boombap, em alguns momentos com um belo uso de percussão e instrumentos. Froid pôde explorar melodias e versos mais cantados; o Maka tem espaço para fazer suas quebras de rima, que aqui ocorrem de forma mais orgânica. E o estilo musical ajuda a valorizar as características individuais de cada um.

“Abutres vigiam sua hora da partida
Descartam vidas e defendеm famílias
Partem à francesa, fazem a еgípcia
Enquanto jovens à deriva
Desperdiçam suas vidas
O climax, a tônica
Dessa crônica em poesia
É desgraçar essa corja
Cavar suas covas”
— Makalister em “Ventriloucos”

O foco que faltava em outros projetos está presente aqui e eleva este disco a um nível que, individualmente, nenhum dos dois havia alcançado — acredito que não só para o meu gosto pessoal, mas em suas discografias individuais.

Por fim, é importante destacar que o Makalister consegue trazer a cultura de sua cidade de forma sutil, mas reconhecível. Já o Froid demonstra que a parceria vai muito além da música; é possível ver que são bons amigos. Ambos compartilham o apreço por referências cult, mas também pelas vivências na cidade/estado natal do Maka.

“Como você age quando vê que ninguém filma?
Preso em um contrato de uma vida
Maka, eu sempre dei valor à ilha
Semana que vem eu tô aí”
— Froid em “Trago Pra City”

Para quem ainda não deu uma chance a este disco, recomendo que ouça. Além de ser um dos melhores projetos de 2025, tenho certeza de que pelo menos uma faixa se tornará uma das suas favoritas.

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