Flagra Essa Faixa: “Lalá”, o sexo oral em outra perspectiva no rap

Quando falamos da Karol Conká, é difícil não pensarmos no fenômeno que ela se tornou e na popularidade que alcançou. Mas, para quem está inserido na “bolha” do rap, a importância da MC  talvez seja muito maior do que se imagina.

Foto: Gustavo Delgado (@gudelgado)

Antes dela, tivemos muitas “MCs mulheres” que pavimentaram a possibilidade da existência de uma Karol Conká. Dina Di, Stephanie, Kamilla CDD e Negra Li talvez sejam algumas das maiores e mais importantes que vieram antes da MC paulista, mas depois dela são incontáveis as mulheres que têm causado impacto na cena. Para citar algumas: Clara Lima, Drik Barbosa, Crystal, Ebony, Bivolt, GABZ, Brisa Flow e Rap Plus Size.

O papel da mulher no rap é muito importante. Principalmente quando a mulher vem carregada de atitude, como eu vejo em muitas minas do rap nacional. Graças a Deus! Graças a Negra Li, graças a Dina Di, Kamilla CDD que apareceram e a gente falou: cara, é isso!

Karol Conká no documentário Rap Pelo Rap (2016)

Isto também nos leva a questionar essa distinção entre homens e mulheres no rap. Embora essa divisão, infelizmente, sempre tenha existido, não só aqui no nosso país, já faz alguns anos que ela tem sido colocada em xeque.

Estas artistas se permitem fazer certas coisas nas músicas que muitos “MC homens”, tradicionalmente, não costumam (ou não costumavam) explorar, como trabalhar com timbres e harmonias ou produzir coreografias para seus shows e audiovisuais. Além disso, elas também abordam temas de uma perspectiva totalmente diferente, suas visões são outras, o amor ganha um significado diferente e a maternidade traz discussões que são mais que necessárias, ainda mais para enfrentar o machismo enraizado no rap.

Neste sentido, a faixa “LaLá” é um marco no rap nacional, não apenas por falar sobre o sexo oral na perspectiva feminina, mas por ser uma inversão explícita das famosas linhas relacionada ao sexo do ponto de vista masculino. Não é difícil, por exemplo, encontrar músicas que objetificam as mulheres ou se referem a fazer sexo com fãs, rimas que passam despercebidas sem gerar repercussão negativa para estes artistas e em muitos casos não impedem o sucesso dessas canções.

A questão não é ser puritano e dizer que estas músicas não podem ser feitas ou cantadas, muito menos fazer sucesso. O ponto é que, para as mulheres, fazer sucesso, conseguir alcance e interações, com uma música com estas estratégias, mas adotando um ponto de vista feminino, é quase que impossível, principalmente se a mulher que canta a música não atender o padrão de beleza uma mulher do imaginário do ouvinte.

Questionando estereótipos e tabus

“Lalá” toca na temática do sexo de uma maneira divertida, sem deixar de tratar destas e outras questões importantes. A faixa inicia com um verso que coloca a persona de “pegador”, que muitos homens costumam adotar entre amigos, em xeque. E, mais do que isso, mostra que um homem com essa postura não está pronto para uma mulher confortável com seu corpo e decidida em tomar as rédeas no meio da relação, exigindo o sexo oral.

Moleque mimado bolado que agora chora
Só porque eu mandei ajoelhar
Fazer um lalá por várias horas
Ele disse por aí que era o tal
Pega geral e apavora
Seduzi pra conferir
E percebi que era da boca pra fora (fora)
É, dá pra perceber, existem vários

Contrariando o imaginário popular, ainda existem muitos homens que consideram o sexo oral inferior à penetração, tendo pouca informação sobre este ato sexual. Neste sentido, Karol aproveita para ir mais a fundo e questionar não apenas a técnica do sexo oral empregada pelos homens, mas também seu desempenho na cama.

Esta questão tem sido debatida em diversas formas de arte e em meios de divulgação de conteúdos. Para citar um exemplo, Educação Sexual (Sex Education), um seriado americano da Netflix, levanta esta e muitas outras questões relacionadas à temática que dá nome à série e, em um de seus episódios, o personagem principal Otis, que é o conselheiro do sexo dentre os alunos da escola, mostra que não saber tocar sua namorada Ola quando busca reproduzir sua “técnica” em uma tangerina.

Falam demais, fingem que faz
Chega a ser hilário
Mal sabe a diferença de um clitóris pra um ovário
Dedilham ao contrário
Egoístas criando um orgasmo imaginário
Pouco importa pra ele se você também tá satisfeita
Esses caras ainda não aprenderam que dez minutos é desfeita
Meia bomba, que tomba
Não aguenta o molejo da lomba
Se desmonta, tem medo e no final só me desaponta
Já fico arrependida
Seca, desacreditada e fria
Desse jeito desanima
Quero ser bem atendida

O refrão da faixa revela o que deveria ser óbvio, mulheres também querem sentir prazer e uma preliminar com um bom oral é o caminho para muitas delas alcançarem o orgasmo. Estudos indicam que apesar do sexo oral ser um tabu entre os jovens, é mais comum que o homem receba prazer oral do que o contrário.

O que me anima é a habilidade na lambida
Malícia, muita saliva enquanto eu queimo uma sativa

Karol não esconde outra prática considerada tabu, o uso de maconha. O consumo da cannabis está longe de ter uma discussão séria aqui no Brasil, mesmo com algum progresso na temática nos últimos ano, quem dirá falar do uso da maconha para o sexo. Ainda assim, existem alguns conteúdos disponíveis e estudos sendo desenvolvidos que mostram os benefícios do uso da maconha durante as relações sexuais.

A música segue com Conká reafirmando as suas necessidades sexuais, indicando inclusive que quando os direitos iguais também passam pelos prazeres que as mulheres também merecem ter. Neste segundo verso, a MC descreve o momento que a mulher exige e não tem suas expectativas atendidas.

O clima deixa de ser quente, confundiu minha mente
Falam demais, quando chega na hora, a ação não é equivalente

A história contada neste verso não deve ser novidade para muitas mulheres. Por trás da persona de “pegador” de muitos homens há muita insegurança e inexperiência. O que decorre da maneira como o sexo é tratado na sociedade não ajuda na solução desses problemas, tanto do lado das mulheres quanto do lado dos homens.

O sexo muito além do prazer

Foto: Divulgação/Youtube

A faixa é um bom lembrete de como uma boa educação sexual pode contribuir para as relações em geral, não só para o prazer sexual. Ter segurança com seu corpo, conhecê-lo e poder falar de forma natural a respeito de sexo poderia ajudar a combater problemas que vão muito além dos prazeres entre quatro paredes.

Especialistas indicam que trabalhar a educação sexual de forma geral poderia contribuir para diminuir violências homofóbicas contra crianças, prevenção de doenças, minimizar o risco de gravidez precoce e contribuir para identificar o que é e como denunciar o abuso sexual.

Rico Vasconcelos, infectologista da Universidade de São Paulo (USP), comenta para o site do Drauzio Varella que o “sexo e sexualidade fazem parte da humanidade e da vida das pessoas, e negá-las ou ignorá-las traz consequências para a saúde pública. Esses são temas de saúde, como a amamentação e a alimentação saudável.”

Entre adultos, ainda é surpreendente algumas das perguntas feitas por jovens e adultos no quadro Laura Müller do Altas Horas. O segmento, que é um sucesso no programa da Globo, demonstra como o sexo ainda é um tabu no nosso país. Inclusive, a própria sexóloga já contou em entrevista para o site Meia Hora que tinha vergonha de falar sobre sexo, tendo que buscar mais sobre o assunto até que pudesse se sentir à vontade:

“De cara achei difícil. Nas minhas primeiras entrevistas, eu ficava envergonhada de falar o que hoje eu falo com a maior tranquilidade. Ficava com vergonha de falar pênis, vagina, de fazer perguntas. Eu via que os especialistas que eu entrevistava conversavam naturalmente sobre o tema e pensei: ‘Preciso me especializar para rever meus conceitos, meus preconceitos e ficar um pouco mais embasada em um tema tão polêmico quanto o sexo”, conta Karol.

Neste sentido, “Lalá” é uma das músicas de rap que está a frente de seu tempo. Enquanto o sexo ainda é um tabu, Karol encara o assunto com extrema naturalidade e confiança.

“Não entendo quando me falam que eu não devia cantar uma música como ‘Lalá’ porque é feio. Minha mãe foi a primeira a dizer isso, falou que era baixaria. Mas sempre falei sobre esse assunto com as minhas amigas. Era ‘lalá no clicli’, de clitóris. Minha mãe achou um absurdo quando ouviu. Achou pesada. Aí botei ‘meu pau te ama’ para ela ouvir e ficou tudo bem. Até meu filho acha que a música é ok”.

Karol em Entrevista para IG

O sexo também é tratado com seu filho de maneira orgânica e natural, como deveria ser com qualquer assunto. E, na visão da MC, esta é uma forma de criá-lo de maneira a evitar que ele seja machista.

“Converso de um jeito leve, descontraído. Não falo “pênis na vagina é sexo”. Mas ele sabe o que é. Sexo oral, por exemplo, ele falou que era um carinho dos adultos. E é mesmo. Quando ele deu um selinho numa amiga, me contou. Achei fantástico. Ele não me esconde nada.”

Karol em Entrevista para IG

Essa abordagem da MC é defendida por inúmeros especialistas do assunto, que inclusive definem a educação sexual como algo muito mais abrangente que perpassa as mais diferentes idades. É o que diz a psicóloga Mary Neide Damico Figueiró, professora da UEL, em entrevista para a Folha de Londrina:

“Os pais educam ao dar um modelo positivo de vida a dois, mas quando não se conversa sobre o tema também acaba sendo uma forma de educação sexual. Os filhos captam aí a mensagem que é um assunto que não deve ser falado e acaba se passando a ideia de que é um tabu. As crianças acabam buscando respostas entre os amigos, pela mídia ou pela internet, que é o pior caminho.”

Abrindo caminhos no rap nacional

Muito mais do que separar os MCs pela orientação sexual e/ou identidade de gênero, está na hora de darmos valor aos artistas que, independente de suas escolhas pessoais, empurram a cultura para frente, abordando assuntos que até então nunca tinham sido explorados e foram pouco utilizados como temática para as composições ou ainda que possibilitam outras perspectivas.

Foto: Jonathan Wolpert/Divulgação

Nesse contexto, um exemplo interessante são os discos O Proceder (2017) e Pajubá (2017), de Gloria Groove e Linn da Quebrada, respectivamente, que, anos antes dos demais artistas da cena, já explorava diversos elementos inovadores, como harmonias e diferentes estéticas, e incorporavam inúmeras sonoridades, como o próprio trap, em suas músicas. Embora sejam artistas bastante inovadoras, elas não alcançam a projeção que deveriam receber, deixando evidente que o olhar lançado para estas artistas não é o da apreciação da música e as julga a partir de  uma visão cheia de preconceitos.

A mídia e o público conservador, que sequer consomem ou buscam conhecer os gêneros musicais do rap e do funk, por exemplo, e quem dirá entender a profundidade das obras produzidas nestes meios, escolhem questionar “Verdinha” da Ludmila, por falar de maconha pelo fato de ser uma mulher, ignorando inúmeras músicas ou formas de entretenimento que fazem referência a esta mesma droga ou outras drogas mais pesadas. Esquecem que ela é uma das artistas mais bem-sucedidas da nossa geração e sua música é ouvida e amada por milhares de pessoas, sendo um exemplo para muitas pessoas.

Quando um artista leva a cultura para um outro patamar e faz de sua música o início de um debate de relevância social, tabus são rompidos e o caminho para que os próximos possam fazer isso sem enfrentar os problemas dos que que vieram antes. Isto é o que deveria ser apreciado e exaltado pelas mídias e ouvintes do gênero.

Desta maneira, tal como ocorre com artistas mulheres em outros gêneros, o público do rap nacional ignora as contribuições que  Karol Conká trouxe para o gênero. Ela foi, e ainda é, responsável por popularizar o rap, a partir de outras frentes do entretenimento, lançando consistentemente música de alta qualidade. Pouco se fala de Batuk Freak (2013), que pode ser considerado um dos melhores disco de 2013, se não for o melhor, e também um dos melhores da década.

Karol possui uma influência similar ao que a Lil’ Kim fez no rap americano nos anos 90 e que reverbera até os dias de hoje. A americana foi uma artista que impulsionou a presença das mulheres no mainstream, criando uma espécie de fórmula para as artistas que vieram após seu sucesso na década de 90. 

Kim, dentre as inúmeras características que marcaram e ainda marcaram as gerações que a sucedeu, estabeleceu um caminho de liberdade nas temáticas a serem abordadas nas letras, criou uma nova maneira de se expressar esteticamente e incorporou de forma única múltiplas personalidades em suas canções. De certa forma, Conká fez e ainda faz algo similar aqui no rap nacional, não só na questão estética, mas, principalmente, na maneira como aborda diferentes temáticas em suas músicas. Ironicamente, ambas artistas não possuem o reconhecimento que deveriam ter pela obra que construíram e ainda constroem.

Já está na hora de colocar Karol Conká entre as melhores que empunharam o microfone no rap nacional. “Lalá” não tem o sucesso de muitas músicas que marcaram o rap nacional, talvez por tratar de um assunto que o público não se sente confortável em ouvir. Contudo, é uma música necessária, uma representação da força de uma artista que vem abalando as estruturas da cena sutilmente, sem medo e com vontade de apresentar uma mentalidade que já deveríamos ter conquistado a anos.

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