“Você Precisa do Álibi”: afetos, memórias e ascensão social

No EP Você Precisa do Álibi, Leall inaugura um novo ciclo artístico ao transformar experiências pessoais em reflexão social. O trabalho funciona como um prólogo para o próximo álbum e se afasta de uma leitura linear sobre sucesso e ascensão, optando por uma narrativa atravessada por contradições, memória, afeto e vigilância constante sobre o próprio lugar no mundo enquanto homem negro que passa a acessar espaços historicamente negados.

E aí quando você tá numa posição agora, eu, por exemplo, eu tenho oportunidade de estar mais próximo do meu filho, de fazer parte e de entregar mais carinho mesmo. E isso faz total diferença na nossa criação como ser humano.

A faixa de abertura, “Túnel Rebouças”, estabelece o eixo conceitual do projeto. Ao evocar o túnel que conecta as zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro sem passar pelo Centro, Leall constrói uma metáfora para os deslocamentos sociais, raciais e simbólicos que atravessam sua trajetória, marcada pela criação em Marechal Hermes. Na letra, o rapper expõe códigos de pertencimento, como identificar marcas de roupa pelo tecido ou ostentar um carro zero, que operam silenciosamente como marcadores de classe e raça. A ascensão, segundo ele, altera profundamente a percepção de mundo e o ritmo da vida, permitindo hoje uma presença mais cuidadosa na criação do filho, em contraste com a pressa das mulheres que o criaram e que marcaram sua infância:

Eu sinto isso que eu enxergava o mundo de uma forma antes das coisas começarem a acontecer assim, de eu me mudar para um bairro melhor. Eu acho que a gente é criado muito na pressa também, tá ligado? Tipo, por exemplo, a minha mãe, ela trabalhava em dois, três empregos. Então eu vi a minha mãe uma vez a cada dois dias. E aí quando você tá numa posição agora, eu, por exemplo, eu tenho oportunidade de estar mais próximo do meu filho, de fazer parte e de entregar mais carinho mesmo. E isso faz total diferença na nossa criação como ser humano.” pontua o artista.

Esse movimento, no entanto, não é isento de conflitos. Leall relata que ao ascender socialmente, passa pelo processo de  não ser mais visto da mesma forma por pessoas do passado e, ao mesmo tempo, seguir sendo observado com desconfiança pelos círculos mais abastados. A manutenção do “brio”, nesse contexto, surge como exercício diário: usar a influência conquistada de maneira responsável, sem romper o vínculo com o território e as referências de origem.

A ética da lealdade aparece com força em “Noites Traiçoeiras”. Na faixa, Leall aborda a sagacidade necessária para sobreviver no mercado musical e a importância de estabelecer critérios nas relações. Para o artista, a indústria frequentemente tenta moldar quem deseja prosperar, e permanecer fiel aos próprios princípios costuma ser o caminho mais difícil:

De certa forma parece que a gente vai tendo que se moldar a alguma coisa para ir se encaixando em algum alguns espaços, tá ligado? Eu acho que é sempre mais difícil você se manter fiel à aquilo ali que você pensa, que você acha. Por exemplo, eu poderia ter a capacidade de fazer um som mais comercial e talvez isso poderia me abrir mais portas. Eu poderia ganhar mais dinheiro, mas talvez quando chegasse lá no final, não ficaria tão feliz com essa escolha. Mas é isso, são escolhas. Eu também não julgo quem escolhe faz um som mais comercial, principalmente quem é pobre, tá ligado? Vem de família pobre, porque, pô, é muito difícil. A gente tem muita gente ali que depende da gente, tá ligado? E às vezes pode ser a alternativa mais fácil e melhor para algumas pessoas.” disse Leall.

Já em “Mulher Brasileira”, parceria com o rapper britânico-angolano Blanco, o EP assume uma vivência mais sensual, celebrando o desejo, o corpo e o cotidiano. Ainda assim, o artista mantém um tom mais reservado ao longo do trabalho, deixando claro que o afeto e a intimidade aparecem como territórios de cuidado.

Ao falar sobre relações afetivas, Leall afirma que o vínculo emocional é motor criativo. Ele destaca a importância de estar vivendo um romance para conseguir criar e reafirma que mulheres negras ocupam lugar central em suas referências afetivas e estéticas, algo diretamente ligado à sua formação, marcada pela criação ter sido por duas mulheres negras: 

Eu acho que é isso, mano. Tem que ter o romance, tem que ter, tá ligado? Tem que tá amando, tem que tá gostando, tem que tá flertando para para ter inspiração. Acho que a parada é essa. Obviamente, minhas preferências são mulheres negras, tá ligado? Que são minhas referências. Fui criado por duas mulheres negras, então é isso. Eu acho que é buscar pessoas que que eu me identifico. E é isso. O artista tem que tá vivendo um romance para tá inspirado para criar.

Visualmente, “Você Precisa do Álibi”  constrói um diálogo geracional. Fotografias da infância, imagens com crianças,  incluindo seu filho,  e encenações entre o Leall do presente e uma versão mais velha de si mesmo conectam passado, presente e futuro. Inclusive, perguntamos quais foram os discos mais escutados durante o processo de criação do EP e Leall nos contou que buscou inspiração em João Nogueira, no disco “Boca do Povo”, “Álibi” de Maria Bethânia e “O canto crescente” de Emílio Santiago.

“Por exemplo, eu poderia ter a capacidade de fazer um som mais comercial e talvez isso poderia me abrir mais portas. Eu poderia ganhar mais dinheiro, mas talvez quando chegasse lá no final, não ficaria tão feliz com essa escolha.

Musicalmente, o EP antecipa o clima do álbum que está por vir. Ainda em processo de elaboração, o artista nos disse que a sonoridade irá se voltar para caminhos mais orgânicos e instrumentais, com presença de percussões, sopros e referências ao jazz. No centro da narrativa permanecem temas como a liberdade das pessoas negras, a pressão da indústria musical e os impactos desse sistema sobre a saúde mental.O EP “Você Precisa do Álibi” se apresenta como um ponto de transição na carreira de Leall. Um registro que olha para o passado sem romantizá-lo, encara o presente com lucidez e projeta o futuro com consciência e estratégia.

Total
0
Shares
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Previous Article

O Gênio e o Louco “Entre o Céu e a Terra”: uma dupla inesperada?

Related Posts